top of page
Posts Em Destaque

EVA (Economic Value Added) na Advocacia

  • 23 de abr.
  • 4 min de leitura


por Felipe Adaime, sócio fundador



Desde sua criação na década 80, sou um admirador do EVA (Valor Econômico Adicional). Na época, era responsável por M&A em um grande banco dos EUA e participei de um seminário interno promovido pelo banco em NY com os criadores do EVA, Joel Stern e Bennett Stewart. Fiquei impressionado com esse novo modelo, que desde então é utilizado por empresas de todos setores, por bancos, agências de risco, em operações de M&A, e avaliação de desempenho para pagamento de bonificações, entre outras aplicações. Só para contextualizar, o modelo anterior, baseado puramente no DRE contábil, permitia manipulações que levaram a fraudes de bilhões de dólares nos EUA (Enron, entre outros).


O objetivo deste artigo não é dar aula de EVA, mas oferecer uma forma diferente, prática e eficiente de avaliar o resultado financeiro dos escritórios. O EVA é um conceito amplo e relativamente complexo, que utiliza ferramentas derivadas do CAPM (Capital Asset Pricing Model), dos ganhadores do Nobel de economia, Modigliani e Miller, modelo criado no início dos anos 70 e que se tornou padrão na avaliação de ações e ativos financeiros em todo mundo.


Oferece uma interpretação de resultados e valor para aqueles que entendem que uma lucratividade positiva é sinônimo de bom desempenho. Na verdade, na maioria dos escritórios a única informação financeira estruturada disponível é o balancete contábil, isso quando o contador envia, o que nem sempre acontece, agravado pelo fato da maioria dos advogados não terem conhecimento de contabilidade ou finanças para analisá-lo. Outra forma, mas de uma indigência técnica admirável, é o saldo bancário, usado até para definir distribuição de lucro (aliás, uma coisa não tem nada a ver com outra – o fato de ter dinheiro em caixa em determinado momento, não significa que o escritório teve lucro no período).


Quando o mercado jurídico era vendedor – poder de barganha nas mãos dos escritórios – essa falta de informação não era sentida ou relevante, pois com eram muito lucrativos, não davam importância à gestão eficiente do negócio (Jean Paul Getty, um dos homens mais ricos do mundo na época, dizia que o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada e o segundo uma mal administrada -- o mesmo podia se dizer dos escritórios de advocacia até o início deste século). Atualmente, porém, o mercado é comprador, a concorrência cresce exponencialmente e ganhar dinheiro na advocacia ficou bem mais difícil. Por isso, é fundamental ter noção do real desempenho e lucratividade do escritório e de suas áreas de prática, de clientes, e dos advogados, para poder tomar as melhores decisões, corrigir falhas ou aprimorar o que está indo bem.

Para aplicar o EVA na avaliação do desempenho dos escritórios é preciso ajustá-lo às características do mercado jurídico, visto que a estrutura de capital – o mix de capital próprio e de terceiros (no caso, empréstimos bancários ou mútuos) – é diferente da de outros setores até pelo conservadorismo dos sócios na condução das finanças do escritório (embora muitos não tenham reserva para contingências, algo fundamental em qualquer negócio).


Além disso, na maioria dos escritórios, incluindo médios e alguns grandes, a área financeira limita-se às tarefas de tesouraria (faturamento, contas a receber, contas a pagar e bancos) e folha. Não costumam ter Controladoria (planejamento – orçamento e business plan --, sistema de informações gerenciais, modelos de precificação, plano comercial, de remuneração variável, e capacidade analítica) para assessorar os sócios na gestão do negócio com informações estruturadas para a tomada de decisão. Impressiona realmente a carência de informações gerenciais sobre as finanças e as operações nos escritórios de advocacia.


Simplificadamente, o cálculo do EVA parte do chamado NOPAT (lucro operacional após impostos), que pode ser obtido no DRE (demonstrativo de resultado econômico gerado pela contabilidade). Uma observação: lucratividade e rentabilidade são índices diferentes. O primeiro é calculado dividindo-se o lucro líquido pelas receitas. Já a rentabilidade é a divisão do fluxo de caixa líquido (não o lucro) sobre o dinheiro aplicado em determinado projeto, usado para avaliação de investimentos e valor do negócio. Como a advocacia é uma atividade basicamente intelectual e normalmente todo ou grande parte do lucro é distribuído aos sócios, quase não há “investimentos” (ativo fixo) ou “lucros retidos” para compor o denominador da fração, não há pelo que dividir o lucro ou a geração líquida de caixa. Assim, nos escritórios, a medida de “ROE" ou "ROI" é a “lucratividade”, a divisão do lucro líquido pelas receitas (o lucro líquido até poderia ser substituído pelo fluxo de caixa líquido, o chamado “free cash flow”, mas, no caso da advocacia, este número normalmente é bastante próximo do lucro líquido, a menos que haja algum investimento elevado no período de apuração, o que não é comum).


Segundo o EVA, para os investidores obterem uma taxa de retorno minimamente adequada, a lucratividade (NOPAT/receitas) deve ser superior ao que os economistas chamam de “custo de oportunidade”, a taxa de retorno que os sócios teriam se ao invés de montar e gerir o escritório, tivessem aplicado o dinheiro em qualquer outro projeto ou no mercado financeiro. Como esse “outro projeto” pode ser um monte de coisas, é mais prático considerar a aplicação de risco zero (no Brasil, a taxa Selic, que carrega risco supostamente zero porque o governo, em último caso, pode sempre emitir moeda local para resgatar seus papéis. Embora isso somente aconteça em raríssimas situações pelas consequências sobre a credibilidade do governo -- a Argentina teve de recorrer a esse tipo de emissão duas ou três vezes e sofre até hoje os efeitos dessa decisão -- os investidores receberiam o dinheiro investido mais rendimentos). A taxa Selic no Brasil é superior a de muitos outros negócios e não por acaso o setor industrial vem despencando há anos como percentual do PIB.

 
 
 

Comentários


Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square
bottom of page