Ótima coluna sobre juros e meta de inflação

8 de maio de 2026
Costumo publicar artigos sobre gestão de escritórios de advocacia no Linkedin e no site da minha consultoria (www.andoverconsult.com.br), especializada neste tema. Mas sendo economista por formação e ofício (fui economista chefe da GM por alguns anos), hoje vou voltar às origens e comentar sobre a coluna de Celso Ming (copia abaixo), na Folha, contestando a proposta de passarmos a usar o núcleo do IPCA (que expurga o impacto de choques de oferta) e de subir a meta de inflação para "permitir" a redução da Selic.
Os defensores do expurgo alegam que esse ajuste é adotado nos Estados Unidos e em vários outros países. Também fazem essa comparação quando tentam minimizar os efeitos do tamanho e crescimento da dívida pública no Brasil, desconsiderando as diferenças entre a economia brasileira e de países desenvolvidos que, com exceção da Alemanha, nunca tiveram experiência com hiperinflação.
Concordo com Ming -- mais uma vez estão culpando o termômetro, em vez de atuar sobre as reais razões para a inflação estar acima da meta e as taxas de juros tão elevadas. Dá para entender que leigos sejam seduzidos por essa ideia, mas economistas que viveram ou pelo menos estudaram a hecatombe econômica causada pela hiperinflação no Brasil e entenderam as premissas e medidas adotadas com tanto sucesso no Plano Real ?
É justamente o pavor de reacender a hiperinflação que permeia o conservadorismo da política monetária do Banco Central (BC) desde a adoção do bem sucedido tripé "câmbio flutuante/equilíbrio fiscal/meta de inflação" por Armínio Fraga ao assumir a presidência do BC em 1999. Desses pés, o equilíbrio fiscal tem sido o mais prejudicado, em especial a partir da saída de Henrique Meirelles do BC, que presidiu de 2003 até 2010. A partir daí, o país voltou a registrar déficits fiscais elevados e, mais recentemente, por vários gastos serem "expurgados" do cálculo do déficit -- mais ou menos o que agora está sendo proposto para o IPCA -- também a dívida pública vem crescendo em relação ao PIB (não adianta tentar disfarçar o estouro do orçamento, pois o excesso de gastos não escapa do crescimento da dívida).
De fato, os mesmo economistas que defendem expurgos no cálculo da inflação tentam reduzir o impacto negativo do crescimento da dívida pública, apoiando-se no fato de os países desenvolvidos como EUA, Europa e Japão, entre outros, terem relação divida pública/PIB acima de 100% (a do Brasil deve fechar o ano acima de 80%). Esse argumento incorre num erro primário -- esses países têm moeda conversível e, por isso, podem emitir moeda para pagar sua dívida quando quiserem (é lógico que isso deve ser evitado, pois têm efeito inflacionário e deprecia o valor da moeda, o que pode ser negativo ou positivo, dependendo do objetivo da política econômica e do momento geopolítico enfrentado -- por exemplo, Trump vem provocando deliberadamente a depreciação do dólar, daí a recente queda da inflação no Brasil).
Países emergentes não podem se dar a esse luxo. Dívida muito elevada em relação ao PIB, em especial quando está crescendo rápido como a nossa, cria receio de eventual dificuldade para resgate ou giro da dívida, levando compradores a exigir taxas de juros mais elevadas para comprarem títulos públicos (apesar da sua atratividade pela enorme diferença entre os juros daqui e os dos países desenvolvidos). No caso da dívida interna, denominada em reais, o governo pode, claro, emitir moeda local para honrar o resgate de seus títulos, mas isso causa mais inflação e, portanto, não é uma opção sadia ou duradoura. Na dívida denominada em dólar, apesar das reservas brasileiras serem elevadas (US$ 330 bilhões), pode afugentar investidores, visto que o risco de inadimplência é baixo, mas limitado a esse valor das reservas, que uma crise mundial de grande porte pode consumir rapidamente (já aconteceu aqui no passado, nos anos 80, levando a seguidas moratórias, e na Argentina com mais frequência).
Também não tem comparação com outros países adotar agora o expurgo de choques de oferta para provocar a queda artificial da inflação porque eles não carregam o fantasma da hiperinflação. Na verdade, não tem mágica ou manipulações. Para reduzir inflação e taxas de juros é preciso eliminar o déficit público e manter o orçamento equilibrado -- ou, melhor, com superávit para o Estado ter condições de investir em projetos que realmente elevem o crescimento e a renda média do país. A recente queda da inflação -- já está subindo de novo com a Guerra no Golfo -- deve-se a dois fatores externos: as exportações da China, que entram no país a preços muito inferiores ao produto local, e a política de desvalorização do dólar de Trump, visando reduzir o déficit comercial e reativar a indústria americana, nada a ver com qualquer plano ou ação anti-inflacionária no Brasil.
Além disso, a política monetária restritiva do BC é hoje a única âncora a que ainda consegue segurar as expectativas sobre a inflação do mercado. Se mexerem no cálculo do índice de inflação ou elevar a meta, mesmo que por percentual mínimo, o impacto nas expectativas será devastador. No dia seguinte, volta com tudo a memória da hiperinflação, empresários passarão a reajustar preços, sindicatos a exigir ajustes salariais mais frequentes, investidores a buscarem ativos reais e cancelando investimentos, autoalimentando a queda no nível de atividade no país. Os efeitos disso será exatamente o oposto que pretendem esses economistas -- veremos as taxas de juros dispararem para compensar a espiral inflacionária. Ou s
eja, o remédio proposto -- expurgo/redução da meta/ juros artificialmente mais baixos -- vai acabar matando o paciente.
























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